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A paragem como lugar físico… e como estado psicológico

Por Eduardo Francisco Muchanga

Há alguns anos, eu e dois grandes amigos, Lázaro Mazuze e Kava’s, criámos uma expressão que até hoje faz parte das nossas conversas: os paragistas.

A verdadeira felicidade não nasce quando fugimos dos nossos problemas. Nasce quando adquirimos coragem para os compreender, enfrentá-los e crescer com eles.

Chamamos “paragistas” aos jovens que passam grande parte do dia na paragem ou no mercado da nossa comunidade, em Mafuiane. Muitos saem de casa às oito da manhã e regressam apenas ao final da tarde. Entre conversas, risos, partidas de cartas, histórias e debates sobre futebol, a vida parece seguir num ritmo tranquilo.

Durante muito tempo, olhei para essa realidade apenas como um hábito da juventude. Mas, à medida que fui lendo mais, estudando Gestão de Pessoas, aprofundando conhecimentos em Psicologia e aprendendo com o meu docente, comecei a fazer uma pergunta diferente:

Será que a paragem é apenas um lugar? Ou poderá ser também um estado psicológico?

Esta pergunta mudou completamente a minha forma de olhar para a realidade.

À primeira vista, muitos paragistas parecem viver com menos preocupações. Na nossa linguagem, costumamos dizer que têm menos “pepinos”. Para nós, “pepinos” são aqueles problemas emocionais e psicológicos que tantas vezes nos roubam o sono: ansiedade, medo, pressão para vencer, insegurança, comparação constante, frustração ou incerteza em relação ao futuro.

Mas a psicologia ensina-nos uma coisa importante: a ausência aparente de sofrimento não significa, necessariamente, bem-estar emocional.

Às vezes, não enfrentamos os nossos conflitos. Apenas aprendemos a distraí-los.

Uma conversa longa, um jogo, as redes sociais, o álcool, o telemóvel, a televisão, a paragem.

Tudo isto pode transformar-se num refúgio quando não sabemos lidar com aquilo que sentimos.

Não escrevo estas palavras para julgar ninguém.

Escrevo-as porque também me reconheço nesta história.

Durante algum tempo, eu próprio fui um paragista. Também passei horas sem refletir profundamente sobre a vida. Achava que estava apenas a aproveitar o momento, mas hoje percebo que muitas vezes estava apenas a adiar perguntas importantes: Quem quero ser? Que futuro quero construir? O que estou realmente a fazer com o meu tempo?

Foi a leitura que começou a mudar essa realidade.

Depois vieram os livros sobre desenvolvimento humano, comportamento e liderança. Vieram as aulas de Psicologia. Vieram as conversas com o meu docente. Aos poucos, comecei a compreender conceitos como inteligência emocional, mecanismos de defesa, autoconhecimento e gatilhos emocionais.

Percebi que muitas pessoas nunca tiveram a oportunidade de aprender algo tão simples quanto isto: nem sempre fugimos de um problema porque somos fracos; muitas vezes fugimos porque ainda não sabemos como enfrentá-lo.

Talvez seja esse o maior desafio da nossa geração.

Vivemos numa época em que conhecemos as últimas tendências das redes sociais, mas sabemos muito pouco sobre a nossa própria mente.

Sabemos utilizar aplicações complexas, mas não sabemos identificar quando estamos ansiosos.

Sabemos decorar fórmulas matemáticas, mas nunca nos ensinaram a reconhecer um gatilho emocional.

Sabemos falar sobre sucesso, mas quase nunca falamos sobre saúde mental.

Foi então que compreendi algo que mudou a minha forma de viver.

A verdadeira felicidade não nasce quando fugimos dos nossos problemas. Nasce quando adquirimos coragem para os compreender, enfrentá-los e crescer com eles.

Hoje continuo a passar pela paragem.

Continuo a cumprimentar os amigos.

Continuo a conversar.

Mas já não permaneço ali pelo mesmo motivo.

Agora sei que o tempo é um recurso demasiado precioso para ser gasto apenas à espera que a vida aconteça.

No entanto, quero terminar com uma reflexão que talvez seja a mais importante deste texto.

Nem todos os paragistas estão na paragem.

Há quem passe o dia inteiro ocupado e, ainda assim, esteja psicologicamente parado.

Há quem use o trabalho para fugir de si mesmo.

Há quem viva escondido nas redes sociais.

Há quem se refugie em festas, relações superficiais ou distrações constantes para evitar enfrentar as próprias dores.

A verdadeira paragem não é um lugar.

É qualquer espaço onde deixamos de crescer.

É qualquer momento em que deixamos de aprender.

É qualquer fase da vida em que desistimos de caminhar em direção à melhor versão de nós mesmos.

Talvez todos sejamos paragistas em algum momento da vida.

A diferença está em decidir quanto tempo queremos permanecer parados.

Porque a vida continua a passar.

E o futuro nunca espera por quem escolhe viver eternamente na paragem.